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O conto da princesa Kaguya e o arquétipo da primavera

Atualizado: 8 de abr. de 2021

Esse filme fantástico, delicado e surpreendente do Studio Ghibli (2013), que se baseou no conto popular japonês "O Conto do Cortador de Bambu" traz com muita fluidez a história de uma menina que nasce de um broto de bambu, numa vila de camponeses. Lá ela aprende seus valores, vive da terra, tem bons amigos, é feliz. A menina é a própria primavera, e por onde ela passa as plantas crescem e a alegria reina. Mas seu pai acredita que é preciso ir para capital, onde a menina seria reconhecida como princesa e teria seu devido lugar entre a nobreza. Triste, a menina broto-de-bambu encara um treinamento de etiqueta e vários pretendentes importantes, mas não reconhece seus princípios humildes e tampouco os celestiais em nenhum deles. Acaba se unindo a lua, sendo arrebatada para os céus pelo Buda e seu cortejo etéreo.


É muito fascinante ver pequenos lampejos arquetípicos através de contos orientais, porque, para começar, o tratamento dos personagens é de uma sutileza enorme, e bastante diferente do formato que mais conhecemos, dos contos de princesas da Disney, por exemplo. Se viajarmos até a civilização Grega, principal fonte e influência da cultura ocidental, podemos fazer alguns paralelos com o mito de Deméter e Perséfone, a deusa da terra cultivada e a deusa dormente, respectivamente.



Antes de qualquer coisa, é preciso saber que o bambu é para os japoneses uma planta nobre, símbolo sagrado da multiplicação, um espírito da beleza e generosidade. O nascimento da princesa é milagroso, e vem como uma primavera para seus pais, que parecem já ser idosos. Na mitologia grega, Deméter, mãe de Perséfone, ao tentar encontrar a filha, assume forma humana de uma mulher velha. Aqui o conto parece ser paralelo ao da Bela Adormecida, dos irmãos Grimm. Além disso, fundamentalmente agrário, o culto grego da colheita tinha um antigo hábito, segundo o qual o camponês e sua esposa dormiam sobre a terra que deveria ser cultivada, a fim de provocar a vegetação. O que vemos no filme é o casal apenas cultivando e vivendo da terra.


No decorrer da trama, fica claro que a mãe compreende os desejos da filha, a acolhe e tenta dar uma sensação de "casa" à menina enquanto esta passava dificuldades pelas pressões da vida nobre na cidade, distante do que considerava o mais importante. Enquanto isso, o pai faz o movimento oposto: uma festa para comemorar a chegada da fertilidade da princesa, em busca de um pretendente à sua altura. Assim como no mito grego, Zeus negocia o casamento da filha, enquanto Deméter erra pelo mundo, vagando triste a procura da jovem desaparecida.


A semelhança não é literal, até porque na maioria das vezes um mesmo aspecto do universo psíquico é representado por mais de um personagem, o que torna possível uma personalidade com múltiplas faces. A relação entre ambos está no fato de que a menina era uma princesa celestial, seu poder estava além de qualquer nobreza humana, na qual, inclusive, foi infeliz. Este período foi como uma morte simbólica, dormente e de pouco florescer. A ideia aqui não é torcer a história para que se assemelhem, até porque cada cultura favorece esta ou aquela característica nos personagens de uma história, conto ou mito a fim de fortalecer uma mensagem para sua população.


No fim, a princesa chama relutante pela lua cheia, para que a leve de volta para o mundo celestial, mesmo depois de descobrir a felicidade (e também tristeza) na vida humana. A lua por si só é carregada de significados, relacionada ao universo feminino e, extrapolando, ao fato de ressurgir uma vez por mês - a fertilidade - e ao reencontro de Perséfone e sua mãe, Deméter, que no fim ganha o direito de ver sua filha por 1/4 do ano (na primavera).


Queria apenas comentar que a riqueza de detalhes, caminhos surpreendentes e leveza dos contos japoneses supera qualquer interpretação ocidental do mito relativo à primavera (que eu já tenha visto, mas opinião é que nem braço).



(BRANDÃO, Junito. S. Mitologia Grega, vol. I. Petrópolis: Editora Vozes, 1987.)

Arte: Kaguya-hime no Monogatari, 2013.



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