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Boaventura de Sousa Santos e a Pedagogia do Vírus

Atualizado: 7 de jun. de 2022

Acho que seria loucura deixar os dias passarem sem compartilhar com você essa leitura fantástica que encontrei. Boaventura de Sousa Santos, um professor catedrático de sociologia do direito (Portugal), vem nos trazer uma perspectiva interessante sobre tudo aquilo que parecemos já saber, mas de um jeito muito coeso, didático pacas e acima de tudo, de uma forma extremamente prática. Me parece ser uma pessoa que se coloca à disposição de ajudar a pensar, entender e reformar. (Tenho um amigo que chama ele de O Bom Velhinho). Vale dar uma pesquisada sobre quem é essa pessoa.


O livro se chama A Cruel Pedagogia do Vírus e foi lançado semana passada. Nele, Boaventura consegue traçar uma linha nítida entre neoliberalismo - jogo de política internacional - capitalismo, colonialismo e patriarcado - sucateamento e degradação das políticas sociais - crise humanitária. Sua escrita é educativa e ele vai e vem como um pêndulo explicando em cada vinda mais profundamente cada tópico. É uma construção de pensamento bonita de se ver, e ao mesmo tempo muito grave e nefasta, porque não vamos bem das pernas à muito tempo.


A forma de ensinar do vírus é cruel, ela escancara a tampa de uma longa crise na qual nos encontramos, a nível global, onde as consequências se transformam em causa, apenas para justificar os meios pelos quais estamos sendo atacados.



Ele traz que essa versão voraz do hipercapitalismo sujeitou cada uma das áreas sociais ao modelo do investimento privado, na intenção de gerar lucro e somente isso, deixando para o Estado a parcela da população que não os interessa, que julgam “descartáveis”. A degradação de nossas políticas sociais frente ao argumento de “crise financeira” faz com que os nossos serviços mais básicos, aqueles ligados a nossa cidadania e direitos humanos, sejam privatizados até que, diante de uma crise (não a permanente, mas este hiato de instabilidade que se sobrepõe à instabilidade velha) o estado se encontre sem capacidade alguma de responder efetivamente, eficazmente.


Boaventura, de sua maneira didática, faz o grande favor de esmiuçar todos os grandes grupos dos mais vulneráveis, explicando os porquês e o como, talvez para aqueles que, programados para defender o capital privado, se negam a ver. Como dito, são GRANDES os grupos de risco diante não só dessa pandemia, mas da privação de direitos básicos em todos os níveis. As recomendações da OMS foram pensadas para uma classe média que é uma pequeníssima fração da população mundial, que tem algum recurso para cumpri-las.


Neste cenário atual, o FMI incentiva os países a aumentarem suas dívidas para debelar o vírus e arcar com os gastos de emergência, não porque desejem isso verdadeiramente, mas sim porque passado esse momento, seremos muito possivelmente regidos por políticas ainda mais rígidas e de maior degradação dos serviços públicos (onde ainda for possível) na tentativa de recuperar o tal investimento que se converteu em dívida. O neoliberalismo vai avançar e deixará o Estado cada vez mais inapto a responder, mercantilizando a vida coletiva e se escondendo, ainda por cima, num argumento de darwinismo social onde o extermínio de certa parte da população seria benéfico pro planeta terra, justamente a parte que não interessa a economia, nem como trabalhadores, tampouco como consumidores, populações descartáveis “como se a economia pudesse prosperar sobre uma pilha de cadáveres ou de corpos desprovidos de qualquer rendimento.” É diante desse cenário que o problema, a causa-raiz nos mostra sua face e o caminho tortuoso que vamos trilhar se continuarmos dispostos a segui-los.


Não tenho capacidade nem vou me propor a destrinchar cada ponto apresentado por Boaventura. O livro tem apenas 32 páginas, é de fácil leitura, mesmo em português de Portugal, faz pensar e ajuda a recompor as ideias, que às vezes andam soltas por aí, meio desamarradas, correndo para todos os lados em velado desespero.


Por fim, deixo um trecho importante do livro para minhas amigas pensadoras e meus amigos reflexivos, que faz pensar sobre a prática:


“Assim como aconteceu com os políticos, os intelectuais também deixaram, em geral, de mediar entre as ideologias e as necessidades e as aspirações dos cidadãos comuns. Medeiam entre si, entre as suas pequenas-grandes divergências ideológicas. Escrevem sobre o mundo, mas não com o mundo. Dessa maneira os cidadãos estarão indefesos perante os únicos que sabem falar a sua linguagem e entender as suas inquietações. Em muitos países, esses são os pastores evangélicos conservadores ou os ímãs do islamismo radical, apologistas da dominação capitalista, colonialista e patriarcal.”



*imagem de Bacurau. Kleber Mendonça Filho, 2019.

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